Glaciar dos Polacos – Relato para download

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A Volta – parte final

Não sei se era porque estava escuro, mas a descida me pareceu muito maior do que eu lembrava. Uma nova onda de medo bateu. Se eu não conseguisse forças para descer… A maioria das estórias que eu conhecia de acidentes envolvia a chegada ao cume muito tarde, problemas na descida e pernoite lá em cima. Acho que Arthur se lembrou de me saudar pelo nosso feito com um toque de mão, mas eu só conseguia pensar em sair dali. Logo no início da descida, percebi que a neve que tanto nos atrapalhou para subir, agora dava uma ajuda incomparável para descer. Os quatrocentos metros finais da rota normal seguem “espremidos” entre grandes massas e pilares de rocha. Espremidos para a proporção da montanha, pois, para nós, é como uma auto-estrada com uns 50 metros de largura. Um caminho de milhares de rochas de um desmoronamento de milhões de anos. A neve pisada formava uma rampa estreita seguindo rente à lateral, por cima daquele terreno irregular que eu bem me lembrava. Arthur já recuperava as energias e disparava caminho abaixo. Eu ficava mais atrás e, de vez em quando, sentava em uma pedra maior para descansar as pernas da forte e contínua descida. Não tardei em chegar à “Cueva”, uma cavidade na parede do início da canaleta, usada como abrigo em situações de emergência. Lá havia dois tambores de plástico azul provavelmente com água, comida, remédios, mantimentos e a frequência de rádio dos guarda-parques escrita na parte externa: 142.800 MHz. Arthur descansava lá também e decidimos passar um rádio para avisar que estava tudo bem. Na face em que nos encontrávamos, só conseguimos contato com o acampamento base Plaza de Mulas, da rota normal. Demos detalhes de nossa situação e eles pediram que avisássemos o acampamento base Plaza Argentina, no lado leste, quando chegássemos à barraca.

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A Escalada – parte 5

Acordei com o bip inaudível do alarme do meu relógio de pulso. Diferente dos dias de folga, que eu custava para levantar às nove da manhã, eram 4:30 da madrugada e fazia 21 graus negativos no termômetro. Chamei Arthur que começou os preparativos. Apesar de ter adiantado alguma coisa na noite anterior, vários detalhes ainda eram necessários. Colei os curativos de Arthur nas bolhas dos meus pés, passamos protetor solar fator 60, derretemos água para beber antes de partir e para levar nas garrafas térmicas. Engolimos alguns biscoitos, fixamos as lanternas nos capacetes, regulamos os bastões, ajustamos as cadeirinhas, vestimos balaclava, gorro, luvas, calçamos as botas e alguns minutos depois das seis estávamos dando os primeiros passos em direção à grande geleira com o tilintar dos metais pendurados. Saiba mais

Expectativa – parte 4

No dia seguinte não fizemos o dia de descanso e movemos nosso acampamento do 1 para o 2. A subida foi um pouco menos dura, pois pelo menos eu já sabia que ela terminava e onde. Eu voltara a usar as botas duplas, administrando as bolhas com fitas, esparadrapos e guardando para o dia do cume uns curativos próprios para bolhas que Arthur trouxera e me ofereceu. Era uma espécie de adesivo de espuma em forma de círculos de vários tamanhos e vazados no meio para acomodar a bolha.

Depois de montar a barraca, fomos nos abastecer com benzina deixada lá pelos grupos que voltavam mais leves. Nossos dois litros iniciais já estavam no final e garantimos mais um litro.

De acordo com nosso planejamento, precisaríamos ficar dois dias no campo 2 aclimatando antes de tentar o topo no dia 9. Mas este dia era o dia da neve pela tarde.  Aguardaríamos um mais para, na véspera, contactar o acampamento base via rádio e nos informar sobre o clima. Cheguei a cogitar a hipótese de, por conta da meteorologia, anteciparmos a tentativa de cume para o dia 8, mas Arthur discordou com razão. Não seria suficiente para nos acostumarmos com a altitude. Precisávamos ter certeza que estaríamos em perfeitas condições físicas para a escalada.

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Muita neve (parte 3)

Nesta noite nevou pesado sem interrupção. Para sair da barraca primeiro tivemos que desobstruir a entrada. Acordamos com meio metro de neve cobrindo tudo de branco. Mais tarde partimos para o campo um. Arthur me contou que ouvira de alguém, que o ideal para sabermos se conseguiríamos fazer a Polacos era se conseguíssemos subir o trecho entre o acampamento base e o acampamento um em três horas e meia. Segundo informações na internet esse percurso era feito de 3 a 5 horas.

Ia ser a primeira vez que eu iria caminhar com aquelas minhas novas botas duplas. Novas porque eu estava estreando, mas eu as tinha comprado de segunda mão.  Foi meio em cima da hora e pela internet, pois as minhas antigas tinham começado a se esfarelar na última montanha que fiz no Peru. Não me preocupei muito com isto, pois elas eram do mesmo número da antiga e, apesar de serem de outra marca e modelo, já vinham amaciadas!

 

Bolhas nos calcanhares

Bolhas nos calcanhares

Mas não é que as coisinhas começaram a fazer um atrito miserável nos calcanhares? Eu não estava nem na metade, Arthur já tinha disparado na frente com os silver tapes enrolados nos bastões e agora eu ia pisando com cuidado e curtindo as dores das bolhas que começavam a se formar. Sempre costumo dizer que bolha se resolve no início. E a melhor solução pra mim é cobrir o local com silver tape antes de formar a bolha e não vi opção. Nem lembro da última vez que tive bolhas nos pés e agora eu tinha mais uma coisa pra me preocupar. Se andar algumas horas estava me torturando, no dia do cume, com 10 horas de escalada e o pé já detonado há dias ia ser uma delícia, além de ficar mais suscetível a congelamentos nas áreas machucadas. Saiba mais

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